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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Culpabilidade dos pais

Atendendo a que muitas das informações aqui colocadas, vão ser na área da psicologia infantil, devo dizer que não poderei falar dela sem me referir aos pais em concreto e tentar esclarecer alguns pontos que considero importantes.
Já falei um pouco da criança e do seu meio, quer na escola, quer na família. No entanto gostaria de salientar, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, os psicólogos não estão em luta contra os pais.
- É um facto real de que a forma como os pais educam e amam os seus filhos vai influenciar o seu desenvolvimento.
- Também é um facto que maus tratos infligidos à criança vai ter consequências nefastas ao nível do seu desenvolvimento psíquico e físico.
- Não é verdade que atrás de cada criança com problemas estejam sempre pais que não a amem e não queiram o seu bem.
- Não é verdade que cada criança com problemas esteja a ser vitima de maus tratos.
- É verdade que muitas vezes os pais, quando chamados à atenção (normalmente pela escola) para algum problema que o filho apresente, sentem-se imediatamente culpabilizados, como se tivessem alguma responsabilidade directa e intencional no mal estar do seu filho.

Por vezes atrás de cada criança estão pais também eles em sofrimento e que por razões maiores, não conseguem evitar que isso transpareça para a criança.
É verdade que os pais não vão ser 100% perfeitos na educação dos seus filhos, nem é isso que se pretende. Muitas vezes vão errar e aprender com os seus erros. É importante que saibam que ao procurar ajuda psicológica para os filhos, vão também ter um papel muito importante na terapia com essa criança e dessa forma estão a ajudar-se a si e à criança. Nessa altura têm a oportunidade de rever o que poderão estar a fazer menos bem e perceber porque estão a agir de determinada forma, já que algumas incorrecções que surgem, significam que algo no próprio desenvolvimento dos pais, também esteve menos bem.
Nós, psicólogos das crianças, queremos trabalhar em conjunto com os pais, ajudando-os o mais possível a também se sentirem felizes. Porque, pais felizes geram filhos felizes, e quanto mais os pais se sentirem culpados, mais necessidade podem ter de não reconhecer que algo está mal, e nessa altura, já não estão a ajudar os filhos nem a si mesmos.
Errar é humano” e os pais também erram (felizmente), porque não existe ninguém perfeito e o melhor pai/mãe é aquele que consegue reconhecer e aprender com os seus erros, conseguindo assim minimizá-los.
Neste meu discurso não quero dizer que se desculpabilizem os maus tratos infligidos às crianças, que infelizmente continuam a ocorrer com grande frequência. E esses sim, deveriam ser punidos de forma mais severa e os serviços de protecções de menores ser mais eficaz no nosso País. Mas é importante que se consiga “separar o trigo do joio”, o facto da comunicação social alertar cada vez mais esses casos (e ainda bem que o faz), não significa que todos os pais possam estar a ser negligentes ou abusadores. O técnico tem nas suas mãos uma arma muito potente, não pode por isso utilizá-la de forma leviana, tem que haver responsabilidade e bom senso da sua parte, para não cair em erros de julgamento e mau diagnóstico.

Psicologia infantil

Psicologia Infantil é uma área que como o próprio nome indica se debruça sobre a criança e o seu funcionamento. É uma área muito vasta que abrange a faixa etária desde o nascimento até à adolescência. Para o técnico perceber bem a criança, é necessário que tenha presente as várias etapas do seu desenvolvimento, desde a gestação até à fase “quase” adulta. Durante este processo a criança vai ultrapassar fases nas quais se vai desenvolvendo e adquirindo competências que vão ser essenciais para se tornar num adulto saudável tanto física como psiquicamente, desenvolvendo assim também a sua personalidade.
A criança deve ser vista como um todo, emocionalmente e intelectualmente, estando estas duas componentes intimamente interligadas enquanto se vão desenvolvendo. A forma como uma criança desenvolve os seus afectos vai influenciar a forma como se vai desenvolver cognitivamente e o inverso também acontece. Quando uma criança aparenta ter dificuldades de aprendizagem, o técnico não deve cingir-se à avaliação da área cognitiva sem perceber que outros condicionantes possam existir na sua vida familiar, cultural e emocional, que impeçam a criança de fazer uma aprendizagem adequada.
Uma criança que esteja a vivenciar problemas no seu meio familiar, por vezes não se consegue abstrair deles e concentrar-se nas tarefas escolares. O inverso também ocorre, por exemplo, uma criança que sinta dificuldades em aprender, pode começar a sentir baixa auto-estima, que se traduz numa imagem negativa de si própria e isso vir a prejudicar ainda mais esse problema. No entanto, não são só estes dois exemplos que acontecem, a criança que tem problemas familiares que condicionam a sua aprendizagem, e que vão traduzir-se em maus resultados escolares, levam-na também a sentir-se incapaz quanto às suas competências, quer no seu ambiente familiar, quer na escola.

Inicialmente é a família e o meio onde a criança está inserida que vai determinar o seu desenvolvimento adequado. Isto pressupõe que na sua vida emocional existam uma figura materna e uma figura paterna e que as relações entre si sejam equilibradas. Para uma boa adequação social é necessário que se dê uma boa integração das regras e limites. Os pais têm que saber dizer NÃO na dose necessária, de forma a que a criança consiga suportar adequadamente a frustração (Strecht, 2005). O pediatra e psicanalista Winnicot, referia que "a mãe deve ser suficientemente boa", quer com isto dizer que os pais devem corresponder às necessidades dos filhos, mas ensinando-lhes que não poderão ter todas as suas necessidades satisfeitas no imediato.
É após a entrada para a escola, onde a criança passa a maior parte do tempo, que os problemas podem começar a surgir, com uma sintomatologia especifica em forma de perturbações da aprendizagem e/ou comportamentais e/ou somáticos. É assim necessário que os técnicos de ensino e os pais saibam identificar quais os sintomas e encaminhar a criança para um técnico da área do desenvolvimento infantil.
Em resumo, “o desenvolvimento e a maturação da criança são por si fontes de conflitos que, como qualquer conflito, podem suscitar o aparecimento de sintomas” (Marcelli, 2005), por isso, quer em família, quer na escola, é importante estar-se atento de forma a agir o mais rapidamente possível, minimizando assim probabilidade de evolução para um quadro mais patológico.

Quanto heroísmo não é necessário para vencer e ultrapassar os monstros que povoam a imaginação infantil desde a mais precoce razão!
Quanto heroísmo para vencer as injustiças do meio familiar e social!
Quanta coragem para que uma criança se tenha de insensibilizar a situações que ultrapassam o seu poder real!
Quanta força interior é necessária para a criança se construir a si própria como pessoa, perante a indiferença e o abandono dos maiores! (Santos, 1984)