quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Anorexia na infância

Apesar da anorexia ser mais conhecida como pertencente ao período da pré-adolescência e/ou adolescência, não podemos esquecer que este tipo de comportamento alimentar pode ter um inicio muito precoce, e que poderemos chamar de perturbações da esfera oral e alimentar.
- Anorexia (no bebé) ou anorexia essencial precoce (Marcelli, 2005)
Os primeiros dias de vida são muito importantes para o bebé aprender a sugar o leite. Por vezes o bebé parece não demonstrar qualquer interesse em alimentar-se, correndo graves risco para a sua saúde. São casos mais raros e quando surgem fazem-nos suspeitar de uma depressão no bebé, com possível origem na fase fetal.

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Anorexia do desmame ou do 2º trimestre (Marcelli, 2005)
Ocorre na fase do desmame, entre os 5 e os 8 meses. É a fase em que o bebé deixa de se alimentar exclusivamente a leite e começa a englobar outros alimentos. A alteração desse regime alimentar chama-se desmame e nem sempre é pacifico. Por vezes ocorre uma rejeição da parte do bebé a tudo o que não for leite. A partir dos 8 meses se continuar a não aceitar os outros alimentos (excepto o leite), podemos falar em Anorexia bebé / desmame ou do 2º semestre. Durante este processo de recusa aos alimentos a criança faz birras constantes, não cede facilmente às tentativas do adulto de a convencer a comer.
É importante motivar o bebé para outros alimentos, uma vez que há o risco de ocorrer daqui uma continuidade para anorexia infantil (na criança). Podem ocorrer por isso atrasos no crescimento ou tomar forma de caprichos ou fobias alimentares.
Por vezes esta recusa aos alimentos pode ocorrer só com a mãe, conseguindo a criança comer normalmente quando acompanhada por outros adultos. Quando estamos perante uma anorexia simples, que se centra basicamente na angustia da mãe, basta que o comportamento da mãe se altere, para que o comportamento alimentar também mude. Quando se trata de uma anorexia mental grave o comportamento de recusa aos alimentos não se altera e podem aparecer outro tipo de distúrbios, tais como os distúrbios de sono, cóleras, digestivos. Neste caso a criança rejeita totalmente o alimento, debatendo-se fisicamente, cuspindo-o e onde os vómitos são frequentes. Podem ocorrer fases em que a criança come melhor, no entanto haverá sempre caprichos nos quais só cede comer determinado tipo de alimentos, como doces, lacticínios, etc.

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Anorexia da 2ª infância
Normalmente sucede às anteriores, no entanto também podem aparecer nesta idade. Os comportamentos de recusa/oposição são os mesmos. Recusa em comer, comportamentos de grande oposição à comida, dificuldade em engolir os alimentos. Existem crianças que vão acumulando a comida na bochecha até fazer uma bola que depois não conseguem de todo ingerir. Qualquer atitude do adulto no sentido de a obrigar a engolir poderá terminar em vómito. Por vezes também podem esconder a comida, numa tentativa de convencer o adulto de já estar alimentada. (Marcelli, 2005)

Perturbações alimentares na infância


  • O alimento na vida de um bebé, além de satisfazer uma necessidade física, também satisfaz a sua necessidade emocional. O acto de alimentar é acompanhado com o acto de embalar, ou falar à criança e este contacto próximo entre a mãe e o bebé vai facilitar a sucção e o acesso ao alimento. É através deste contacto tranquilo da mãe, que este acto passa a ser algo que lhe trará muita satisfação, quer ao nível físico, quer emocional. Desta forma é estabelecido o vinculo afectivo com a mãe.
    No entanto isto nem sempre acontece. Nem sempre o acto de alimentar o bebé é pacifico e acolhedor, quer para ele quer para a mãe e ambos acabam por sofrer. Os motivos para esta situação acontecer podem ser muito variados e as mães sentem muitas vezes angústia e/ou sentimentos de culpa.
    Neste post irão ser identificados vários tipos de perturbações alimentares que podem ocorrer ainda numa fase precoce, e que futuramente serão explicados individualmente:

  • Anorexia (no bebé) ou anorexia essencial precoce
  • Anorexia do desmame ou do 2º trimestre
  • Anorexia da 2ª infância
  • Obesidade
  • Crises de bulimia
  • Potomania (ingestão compulsiva de grandes quantidades de água, ou na sua substituição outros tipos de líquidos)
  • Pica (ingestão de substâncias não comestíveis)
  • Mericismo ou perturbação ruminante (acto de regurgitação dos alimentos para depois voltar a ingerir).

sábado, 19 de julho de 2008

Timidez e Fobia Social

Todos já ouvimos falar ou conhecemos pessoas que são consideradas mais tímidas em relação à maioria. Aquela pessoa que no trabalho, não fala muito, raramente entra em conflito, evita trabalhos e situações em que tenha que estar em destaque e que todos dizem que é mais calada ou tímida, sem ninguém dar muita importância a esse facto. Por vezes ninguém se apercebe, que essa pessoa sofre cada vez que tem que falar com alguém, sofre cada vez que tem que se levantar do seu lugar, porque pensa irracionalmente que todos a estão a avaliar negativamente, a criticar, a gozar.
Este desconforto pode ser sentido pela maioria das pessoas, em determinadas alturas e em graus muito diferentes. Podem haver pessoas que sintam ansiedade social só em situações muito especificas, o que não chega a ser um aspecto limitador na sua vida quotidiana, outras sentem ansiedade social só pelo facto de estarem perante olhares de terceiros e neste caso esta ansiedade transforma-se num distúrbio de ansiedade social chegando a comprometer a sua vida social, profissional e até afectiva. Em casos mais extremos, pode levar a que a pessoa permaneça solteira, não porque não se consiga relacionar afectivamente, mas porque para conhecer outra pessoa tem que entrar num contexto social e isso já não conseguem fazer. São pessoas que não evoluem profissionalmente, não por falta de capacidades, mas por evitamento a situações que envolvam terceiros ou envolvam um certo destaque e por esse mesmo motivo, apresentam por vezes maior instabilidade no emprego. Adolescentes com esta problemática podem apresentar abandono escolar precoce por não suportarem ser avaliados por colegas e professores. O suporte social destas pessoas vai sendo cada vez mais limitado e por esse motivo quando surge alguma dificuldade na sua vida elas vão ter mais dificuldades em a ultrapassar, já que esse mesmo suporte social é uma estratégia muito válida e importante no ser humano. Por isso quem sofre de fobia social está também mais frágil do ponto de vista emocional.
O paradoxo desta situação é o mesmo que existe nas fobias em geral. A pessoa tem medo, e por isso não enfrenta a situação causadora da fobia e quanto mais a evita, mais forte ela se torna e consequentemente mais difícil de enfrentar. Não estou com isto a sugerir que uma pessoa que não sai de casa há um longo período de tempo (neste caso em sequência de uma fobia social) que o faça de imediato. Existe todo um trabalho a fazer até à primeira exposição. Mas o caminho é ajudar a pessoa a perceber porque tem a fobia e ao mesmo tempo trabalhar pensamentos irracionais que tem acerca dela própria e dos outros. Prepará-la emocionalmente para a exposição que terá inevitavelmente que ocorrer mas em doses suportáveis evitando assim um sofrimento maior.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Normal ou patológico?

Ser-se ou não normal é uma classificação perigosa com a qual frequentemente nos deparamos na nossa sociedade. Quantas vezes ouvimos dizer acerca desta ou daquela pessoa, que não é normal porque se isola, não é normal porque não se comporta como os outros, não é normal na sua forma de vestir, etc.
Segundo o Dicionário de Psicologia, a palavra normal, significa “que não se afasta exageradamente do vulgar, da média ou da norma “(Chaplin, 1981). E a palavra norma que vem do latim significa, medida, linha de orientação, regra.
É um facto que sendo nós, seres sociais, nos medimos comparativamente à média da restante população. À medida que crescemos é suposto interiorizarmos regras e normas que facilitam a nossa adaptação na sociedade, a nossa comunicação e a sermos aceites pelos outros. Mas vários autores consideraram a norma ou o conceito de normalidade perigosamente limitativo para a existência individual, colocando de lado a experiência de vida que cada um de nós tem e causadora de angustia para aqueles que não estão de acordo com a suposta regra social.
É humanamente impossível que pessoas com histórias de vida diferentes tenham os mesmos comportamentos e os mesmos sentimentos. E tendo em conta que a noção de normalidade está intrinsecamente ligada ao conceito social e cultura, não poderemos esquecer que as sociedades não são todas iguais e cada uma tem também a sua própria noção do que é ou não aceite como normal. Por isso aquilo que é normal numas culturas já não o é noutras.
Começa então a ser notório que o julgamento social que a maioria de nós faz dos outros não é assim tão claro e linear.
Ainda tendo como base a noção clássica do normal, poderíamos dizer que tudo o que se afasta da norma ou das regras previamente estipuladas, será patológico. Mas será legitimo dizermos que todo aquele que não viveu de forma igual à maioria é patológico? E haverá uma forma de vida exactamente igual para todos? Isso seria o mesmo que dizer que todos somos patológicos. Já que não nos inserimos todos no mesmo meio cultural e não poderemos dizer que uma cultura é mais normal que outra. Ninguém tem um percurso de vida exactamente igual, até porque existe individualidade na forma como cada um apreende o que se passa à sua volta.
E poder-se-á enlouquecer tentando a todo o custo seguir aquilo que supostamente ditam as normas da sociedade?
Ter comportamentos que vão contra a sua natureza psíquica, fazer uma coisa quando se está a sentir outra completamente oposta só porque a norma social assim o dita, poderá causar tal angústia que a pessoa prefere enlouquecer, já que a loucura é uma das formas de fugir ao sofrimento. Não será isso mais patológico?
Não conseguiria nem acho ético tentar definir o que é normal ou patológico. No entanto não posso deixar de admirar as pessoas que se amam com todas as suas diferenças. Carl Rogers fala-nos em “Ser o que realmente se é” e eu gosto de acreditar que normal é amar o que realmente se é.
Imagem: "O Grito" de Munch

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Culpabilidade dos pais

Atendendo a que muitas das informações aqui colocadas, vão ser na área da psicologia infantil, devo dizer que não poderei falar dela sem me referir aos pais em concreto e tentar esclarecer alguns pontos que considero importantes.
Já falei um pouco da criança e do seu meio, quer na escola, quer na família. No entanto gostaria de salientar, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, os psicólogos não estão em luta contra os pais.
- É um facto real de que a forma como os pais educam e amam os seus filhos vai influenciar o seu desenvolvimento.
- Também é um facto que maus tratos infligidos à criança vai ter consequências nefastas ao nível do seu desenvolvimento psíquico e físico.
- Não é verdade que atrás de cada criança com problemas estejam sempre pais que não a amem e não queiram o seu bem.
- Não é verdade que cada criança com problemas esteja a ser vitima de maus tratos.
- É verdade que muitas vezes os pais, quando chamados à atenção (normalmente pela escola) para algum problema que o filho apresente, sentem-se imediatamente culpabilizados, como se tivessem alguma responsabilidade directa e intencional no mal estar do seu filho.

Por vezes atrás de cada criança estão pais também eles em sofrimento e que por razões maiores, não conseguem evitar que isso transpareça para a criança.
É verdade que os pais não vão ser 100% perfeitos na educação dos seus filhos, nem é isso que se pretende. Muitas vezes vão errar e aprender com os seus erros. É importante que saibam que ao procurar ajuda psicológica para os filhos, vão também ter um papel muito importante na terapia com essa criança e dessa forma estão a ajudar-se a si e à criança. Nessa altura têm a oportunidade de rever o que poderão estar a fazer menos bem e perceber porque estão a agir de determinada forma, já que algumas incorrecções que surgem, significam que algo no próprio desenvolvimento dos pais, também esteve menos bem.
Nós, psicólogos das crianças, queremos trabalhar em conjunto com os pais, ajudando-os o mais possível a também se sentirem felizes. Porque, pais felizes geram filhos felizes, e quanto mais os pais se sentirem culpados, mais necessidade podem ter de não reconhecer que algo está mal, e nessa altura, já não estão a ajudar os filhos nem a si mesmos.
Errar é humano” e os pais também erram (felizmente), porque não existe ninguém perfeito e o melhor pai/mãe é aquele que consegue reconhecer e aprender com os seus erros, conseguindo assim minimizá-los.
Neste meu discurso não quero dizer que se desculpabilizem os maus tratos infligidos às crianças, que infelizmente continuam a ocorrer com grande frequência. E esses sim, deveriam ser punidos de forma mais severa e os serviços de protecções de menores ser mais eficaz no nosso País. Mas é importante que se consiga “separar o trigo do joio”, o facto da comunicação social alertar cada vez mais esses casos (e ainda bem que o faz), não significa que todos os pais possam estar a ser negligentes ou abusadores. O técnico tem nas suas mãos uma arma muito potente, não pode por isso utilizá-la de forma leviana, tem que haver responsabilidade e bom senso da sua parte, para não cair em erros de julgamento e mau diagnóstico.

Psicologia infantil

Psicologia Infantil é uma área que como o próprio nome indica se debruça sobre a criança e o seu funcionamento. É uma área muito vasta que abrange a faixa etária desde o nascimento até à adolescência. Para o técnico perceber bem a criança, é necessário que tenha presente as várias etapas do seu desenvolvimento, desde a gestação até à fase “quase” adulta. Durante este processo a criança vai ultrapassar fases nas quais se vai desenvolvendo e adquirindo competências que vão ser essenciais para se tornar num adulto saudável tanto física como psiquicamente, desenvolvendo assim também a sua personalidade.
A criança deve ser vista como um todo, emocionalmente e intelectualmente, estando estas duas componentes intimamente interligadas enquanto se vão desenvolvendo. A forma como uma criança desenvolve os seus afectos vai influenciar a forma como se vai desenvolver cognitivamente e o inverso também acontece. Quando uma criança aparenta ter dificuldades de aprendizagem, o técnico não deve cingir-se à avaliação da área cognitiva sem perceber que outros condicionantes possam existir na sua vida familiar, cultural e emocional, que impeçam a criança de fazer uma aprendizagem adequada.
Uma criança que esteja a vivenciar problemas no seu meio familiar, por vezes não se consegue abstrair deles e concentrar-se nas tarefas escolares. O inverso também ocorre, por exemplo, uma criança que sinta dificuldades em aprender, pode começar a sentir baixa auto-estima, que se traduz numa imagem negativa de si própria e isso vir a prejudicar ainda mais esse problema. No entanto, não são só estes dois exemplos que acontecem, a criança que tem problemas familiares que condicionam a sua aprendizagem, e que vão traduzir-se em maus resultados escolares, levam-na também a sentir-se incapaz quanto às suas competências, quer no seu ambiente familiar, quer na escola.

Inicialmente é a família e o meio onde a criança está inserida que vai determinar o seu desenvolvimento adequado. Isto pressupõe que na sua vida emocional existam uma figura materna e uma figura paterna e que as relações entre si sejam equilibradas. Para uma boa adequação social é necessário que se dê uma boa integração das regras e limites. Os pais têm que saber dizer NÃO na dose necessária, de forma a que a criança consiga suportar adequadamente a frustração (Strecht, 2005). O pediatra e psicanalista Winnicot, referia que "a mãe deve ser suficientemente boa", quer com isto dizer que os pais devem corresponder às necessidades dos filhos, mas ensinando-lhes que não poderão ter todas as suas necessidades satisfeitas no imediato.
É após a entrada para a escola, onde a criança passa a maior parte do tempo, que os problemas podem começar a surgir, com uma sintomatologia especifica em forma de perturbações da aprendizagem e/ou comportamentais e/ou somáticos. É assim necessário que os técnicos de ensino e os pais saibam identificar quais os sintomas e encaminhar a criança para um técnico da área do desenvolvimento infantil.
Em resumo, “o desenvolvimento e a maturação da criança são por si fontes de conflitos que, como qualquer conflito, podem suscitar o aparecimento de sintomas” (Marcelli, 2005), por isso, quer em família, quer na escola, é importante estar-se atento de forma a agir o mais rapidamente possível, minimizando assim probabilidade de evolução para um quadro mais patológico.

Quanto heroísmo não é necessário para vencer e ultrapassar os monstros que povoam a imaginação infantil desde a mais precoce razão!
Quanto heroísmo para vencer as injustiças do meio familiar e social!
Quanta coragem para que uma criança se tenha de insensibilizar a situações que ultrapassam o seu poder real!
Quanta força interior é necessária para a criança se construir a si própria como pessoa, perante a indiferença e o abandono dos maiores! (Santos, 1984)



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

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